No presente texto apresentarei alguns questionamentos que me acompanham ao longo desses bem mais de duas décadas de prática clínica. Recentemente me vi às voltas com o questionamento se ainda poderia chamar de “psicanálise” aquilo que conduzo  atualmente. Esclareço logo, antes de qualquer outra consideração que venha a fazer aqui, que não tenho resposta para essa questão, pelo menos não até o momento. O que me levou a escrever esse texto está assentado no fato que sigo acreditando  que um psicanalista tem sempre uma certa dose de ousadia e curiosidade e que isso seja algo que está inscrito nesse “ser” psicanalista.Um aspecto que acho importante ressaltar para de alguma maneira justificar o esforço desse texto, é que acredito que se escreva pouco, muito pouco mesmo, sobre a técnica em psicanálise e que aí, talvez, resida o cerne da minha questão, assim como, paradoxalmente, aí também encontro algo que vejo como conseqüência dessa mesma questão.

Ao pensarmos em questionamentos sobre a técnica psicanalítica, não poderemos deixar de pensar no nome de Sàndor Ferenczi, deixo  aqui a recomendação de leitura do prefácio ao seu livro “Escritos Psicanalíticos(1909-1933)”, prefácio esse, escrito por Joel Birman, e que nos aponta caminhos fecundos voltados para um pensamento sobre as questões da técnica em psicanálise, ressaltando esse autor, psicanalista reconhecido e atuante, a importância da publicação da obra de Ferenczi no Brasil, nos lembrando que trazê-lo ao debate dentro do movimento psicanalítico é corrigir uma injustiça histórica que ele sofreu, em grande parte articulada por Ernest Jones. Ferenczi chegou a ser chamado de “enfant terrible”, psicótico e um “herege da psicanálise”.  A correspondência entre Ferenczi e Freud também se constitui em leitura imprescindível para entendermos, inclusive, sua importância no curso das pesquisas de Freud. Vejamos esse interessante trecho de Birman em seu prefácio à obra de Ferenczi, que trazemos aqui no intuito de sustentar algumas das nossas questões:

“Então, a técnica em psicanálise é a resultante das exigências teóricas definidas pela estrutura do seu discurso conceitual e da orientação metodológica que se constitui como correlato necessário desta estrutura conceitual.

O que implica em afirmar  que a técnica é o que existe de mais variável no campo da clínica psicanalítica, onde podemos conceber teoricamente a existência de um número quase infinito de procedimentos e de manejos técnicos, desde que sejam compatíveis com as exigências fundamentais da teoria e do método psicanalítico”.(BIRMAN, J.)¹

A autora Joyce McDougall  em muitos dos seus livros, nos chama a atenção em alguns aspectos em particular, embora saibamos que inúmeros outros  estejam contidos em suas obras, talvez até mais interessantes ou importantes dos que os que nos deteremos aqui nesse texto, mas como foi dito anteriormente, esse texto aqui parte de questionamentos que nascem em algo que fala em primeiro lugar da minha própria prática, desse eu, aqui nesse caso que se apresenta como aquilo que é meu,  em uma clínica pretendida como psicanalítica.

Joyce McDougall chama a atenção  em primeiro lugar por sua independência de pensamento, assim como, também, pelo traçado teórico que vai compondo a partir da sua prática, constrói conceitos, estes assentados em uma práxis profundamente reflexiva e rica. Sua independência está evidente tanto na forma como aborda aspectos teóricos oriundos de mais de uma das linhas de pensamento dentro da psicanálise, assim como a forma como conduz sua técnica chegando a importantes conceitos que orientam tanto sua prática, como nos convidam a pensar na clínica que exercemos quando falamos em psicanálise. Pensar em histeria arcaica, forclusão na clínica da psicossomática, por exemplo, se torna algo bastante significativo na prática, ali onde a teoria e técnica necessariamente dão-se as mãos, se entrelaçam para servir de bússola para o par analítico.  Podemos nos perguntar se a ousadia de McDougall não estaria muito mais no ato de publicar sobre suas indagações do que no ato de executá-las na condução da sua clínica.

Outro nome que não podemos esquecer é o de Donald Winnicott, que empreende e imprime todo um traçado bastante próprio na aplicação do método psicanalítico. Mais adiante não podemos deixar de pensar em Heinrich Racker e Pichon Rivière, entre alguns outros que tocaram a questão da técnica ou desenvolveram conceitos a partir dela.
Voltemos mais um pouco a Birman:

“Da mesma forma, Freud enunciou em ‘Conselhos aos médicos sobre o tratamento analítico’, em 1912, que as regras técnicas que enunciara eram sem dúvida alguma o resultado de uma longa experiência clínica e que os analistas podiam evitar longos esforços inúteis em adotá-las. Porém, estas regras eram as que lhe “convinham pessoalmente”, mas que outros analistas com um “temperamento” diferente do seu podiam encontrar e adotar no processo analítico uma ‘atitude diferente’.

Portanto, na perspectiva teórica de Freud é impensável a existência de uma técnica analítica normatizada e universal. O que não quer dizer que o processo psicanalítico não obedeça a uma lógica rigorosa, que encontra sua fundamentação na teoria psicanalítica em reformulação permanente e numa precisa orientação metodológica”.(BIRMAN, J.)¹

Falar de pontos teóricos parece sempre trazer uma certa concordância, as questões surgem  quando se vai aplicar o método, construindo então, com os pressupostos da técnica, a psicanálise enquanto um fato, uma intervenção, uma realização(o ato de analisar). Sabemos que questões simples como: receber ou não um presente, responder a determinadas perguntas, dar ou não diagnóstico etc, não se encontrarão respondidas em uma simples “orientação de procedimento”. Essas serão sempre questões que a técnica em psicanálise responderá, mas responderá com algo que remete de volta ao par analítico, porque vai como tudo mais em análise, depender do singular daquele sujeito, do singular daquela transferência, dos inúmeros acordos construídos entre o sujeito analisando e o sujeito analista, entre os entrelaçados singulares das histórias que se atualizam no par da transferência. Cada indivíduo analista “revisita” a cada dia de trabalho tudo aquilo que o constrói enquanto sujeito no mundo, sujeito que atualiza seus vínculos e busca saídas em seu cotidiano. Ali, despido em frente ao seu analisando, enquanto se cobre com o manto invisível do suposto saber nele depositado e que nunca será realmente vestido. O rei está nu. Viva o rei! Assim é o analista na condução da análise, passeia nu com seu manto invisível.

Vejamos um bom exemplo apresentado por Ferenczi em sua obra citada acima, faremos um pequeno recorte:

“Todo método psicanalítico repousa sobre a ‘regra fundamental’ formulada por Freud, da obrigação do paciente em comunicar tudo que lhe vier ao espírito no decorrer da sessão de análise (…)No entanto, quando o paciente está já acostumado, não sem dificuldade, a seguir esta regra à risca, pode acontecer da resistência tomar precisamente esta regra, para tentar vencer o médico com as suas próprias armas. (…)Resta-nos apenas chamar a atenção do paciente para os modos tendenciosos desta conduta, ao que ele não deixará de responder, triunfante: apenas fiz o que me pediu, simplesmente digo os absurdos que me vêm ao espírito”. (FERENCZI, S. pág. 111)¹

Ferenczi aí está se referindo ao manejo dos neuróticos obsessivos. Está propondo aquilo que nomeou de “técnica ativa”, uma variação bastante significativa na técnica freudiana e que rendeu a Ferenczi toda a avalancha de críticas e perseguições que sofreu dentro do próprio meio psicanalítico.

Temos aí um bom exemplo do como as prescrições da técnica tomam aspectos diferenciados no singular da sessão analítica, sem perder de vista o método.

Sabemos, também, que outra importante sustentação para esse “ser” psicanalista é o seu compromisso com a transmissão, mais do que formar outros analistas, esse compromisso permite colocar em discussão a psicanálise atuada pelo analista. Nesse ponto se colocarão em evidência as questões institucionais que cercam todo saber psicanalítico, instituições essas que, assim como qualquer uma das outras, sofrem sempre da tendência a se cristalizarem e acabar por formar dogmas que substituem e afastam do real saber, porque esse último requer, desde sempre, a possibilidade de mudança, de certo nível de questionamento e rompimento, formando novas questões, novas indagações.  Mannoni nos fala abertamente disso em seu livro “Da Paixão do Ser à Loucura de Saber”, ela nos conta do quanto seria difícil aos analistas em formação, ou mesmo os já de longo trajeto, mostrar sua prática quando essa parece não seguir o estreito caminho técnico que se transmite enquanto “fazer” psicanalítico, afinal a aceitação no meio falará diretamente do seu prestígio profissional que lhe devolverá no real, tanto seu meio de subsistência, quanto  em seu íntimo, a noção de ser admirado e respeitado. Nos leva, a autora, a pensar na importância do ato de escrever para todo psicanalista, visando publicação ou não. Renato Mezan, aqui no Brasil, também escreverá de forma bastante pertinente sobre esse aspecto, o ato de escrever para um psicanalista.

Traduzimos isso como “se colocar na berlinda”, questionar-se e assim questionar sua prática. Um psicanalista solitário trancado à meia luz do seu consultório sempre correrá o risco de perder-se daquilo que mais preza: a “escuta psicanalítica”. Mas, pensamos também, que se fechar apenas em seus círculos de semelhantes, poderá levar ao mesmo resultado, é preciso abrir-se para tudo que o rodeia, como dizem na gíria popular, a escuta psicanalítica requer “estar antenado” com o mundo a sua volta (científico e leigo). Ao proceder dessa maneira abrirá com isso outra possibilidade de risco, a de afastar-se daquilo que se nomeia como psicanálise.  Recentemente isso tem sido muito discutido em relação aos psicanalistas que se aproximaram das vertentes chamadas de “neurociência”, em outros tempos isso já foi discutido quando da aproximação com as abordagens de grupos, instituições ou das chamadas de “práticas alternativas”.

Dentro dessa discussão, outra ainda se colocará, a de o que seria necessário para se reconhecer uma instituição enquanto formadora de psicanalistas, ou indo ainda mais longe, do que formaria um psicanalista. A resposta dada que remete ao tripé parece se apresentar sempre, ele é composto pela exigência da análise do analista em formação, da prática supervisionada e da aprendizagem teórica. Mas será que esse tripé realmente responde a essa questão? Como reconhecer onde esse tripé é aplicado dentro daquilo que se constitui como o irredutível do método psicanalítico? Trabalhar com a transferência e resistência, como disse Freud, seria o suficiente para se pensar ali em psicanálise?

Nomes como Sàndor Ferenczi e George Groddeck nos remetem a esses questionamentos, ali mesmo no início da psicanálise, onde ela ainda se expandia sob o olhar atento do mestre Freud.

O que hoje chamamos de psicanálise e como se forma um psicanalista? Será que temos resposta para essas indagações? Penso que não.

Uma vez que se autoriza enquanto tal, passará esse psicanalista, ao longo de sua trajetória(pessoal/profissional), por alguma modificação que o afastaria daquilo que se poderia reconhecer enquanto prática psicanalítica?  Deixa-se de ser psicanalista em algum momento, uma vez que já o foi?

Utilizar-se de uma técnica alheia à psicanálise, mantendo a leitura e orientação em seu método, faz dessa prática algo que não seja psicanálise?

Um psicanalista que nunca se pergunta sobre sua prática, que nunca entra em crise em relação a ela, é realmente comprometido com aquilo que há de mais característico nela, sua capacidade transgressora, e assim ainda se poderá chamar ao que faz de psicanálise?

Onde se constrói a ética psicanalítica, aquela que atravessa cada sujeito analista no mundo onde vive? Existe uma ética da e na clínica, ou ela abarca toda a vivência do analista?

Essas são as questões que me constroem, no momento sem resposta alguma, obviamente, mas que animam minha clínica ali onde ela acontece, no singular de cada encontro transferencial(contra-transferencial), assim como em todos os espaços onde circulo e debato a teoria que a fundamenta, a psicanálise. Espero encontrar aqui, mais um desses espaços.

Para finalizar esse texto e ampliar a possibilidade desse convite que faço, deixo-os com Ferenczi:

“Esse desejo impetuoso de tudo saber, que me levou neste último parágrafo às distâncias fabulosas do passado e me fez, com ajuda de analogias*, ultrapassar o que ainda nos escapa, traz-me de volta ao ponto de partida dessas considerações: o problema do apogeu e declínio do sentimento de onipotência. Como dissemos, a ciência deve renunciar a essa ilusão, ou pelo menos saber até que ponto ela penetra no domínio das hipóteses e das fantasias”. (FERENCZI, S. pg 87)¹

Perguntar-se sempre, duvidar de si mesmo e de sua prática, talvez seja um caminho para o enunciado de uma clínica psicanalítica e ao ultrapassar dessa onipotência que nos marca, a todos, em nosso desenvolvimento, quer pensemos ele no curso do nosso desenvolvimento pessoal(corrente da libido), quer a pensemos no curso da formação enquanto psicanalistas.

*analogia que fez entre o período de latência e a era glacial.

Leitura sugerida:

1 – FERENCZI, S.  – Escritos Psicanalíticos – 1909 -1933 – Prefácio    BIRMAN, J.

2 – FREUD, S. – Vol XII – Obras Completas – Edição Standart- Imago ed.

3 – MCDOUGALL, J. –Em Defesa de Uma Certa Anormalidade
Teatros do Corpo
Teatros do Eu
4 – MANNONI, M. – Da Paixão do Ser À Loucura de Saber

Por Denise Deschamps

 

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