Em uma discussão com um colega, surgiu (como já havia surgido antes) uma questão sobre o manejo técnico em psicanálise, quando, comentando a posição kleiniana-bioniana sobre técnica em psicanálise, diante de uma citação de Winnicott “no início sou aquilo que o paciente quer que eu seja. Seria muito cruel não fazer isso”. Depois dessa pequena discussão com meu colega fui para casa e pensei melhor sobre essa frase. O que segue abaixo é uma reflexão a partir de um outro referencial: o bioniano.

Primeiramente quando me apercebo do que o paciente quer que eu seja, é porque de alguma forma isso já é passado. Algo já se passou na relação entre analista e analisando e posteriormente foi percebido por este que, a partir dessa percepção pode interpretar o material do paciente. Isso dentro do método, independe da vontade do analista. Logo, dentro do método do método psicanalítico, Winnicott não estaria trazendo nenhuma novidade teórica à questão em sua primeira afirmativa, “no início sou aquilo que o paciente quer que eu seja.”

Bom, a partir desse ponto, gostaria de discutir o que alguns analistas costumam utilizar como um salto teórico entre o que seria manejo e o que seria o método clássico da psicanálise. Antes de mais nada não quero jogar todos os analistas em uma vala comum, apenas discutir uma posição possível, e que alguns analistas podem se sentir tentados a trilhar. Essa é a diferença em “ser” o que o paciente quer que eu seja e “atuar” o que o paciente quer que eu seja. O objeto transicional não atua o desejo do indivíduo, apenas permite sê-lo uma fantasia. Mas isso independe da vontade do objeto transicional, e sim, da pessoa que deseja, no caso o analisando. Digo isso porque considero, de uma forma que pode se chamar de clássica, a atuação do analista (acting out) como um erro técnico.

A partir de uma reflexão de um ponto de vista bioniano, fica a seguinte reflexão: para que, um analista, utilizaria essa frase de Winnicott para justificar (D2 na grade) um actin out (A6) ao invés de uma interpretação (E3,E4,F3,F4)? Essa análise abre um vértice muito interessante, pois estaríamos falando aqui de um aspecto da contratransferência (entendida no sentido freudiano como um buraco no analista) que atua na pré-concepção das teorias psicanalíticas para se justificar. Poderíamos estar falando de uma questão de onipotência, ao achar que um manejo pode suprir problemas na maturação do psiquismo do paciente, uma culpa pela sua condição, etc … Minha proposta é muito mais deixar a pergunta que estabelecer uma resposta.

Agora pode se discutir a segunda parte dessa citação de Winnicott: “Seria muito cruel não fazer isso”. Como já exposto, o método psicanalítico pressupõe o uso do analista como continente para as angustias e terrores do paciente. Quando isso não ocorre, podemos estar diante de um problema de continência do analista, que pode estar sendo atuada como um ataque ao vinculo entre o par terapêutico, quer seja na forma de um vinculo -K. O analista se esconde atrás de seu conhecimento teórico (D2,E2,F2) para não necessitar se relacionar com o paciente (B3). Nesse sentido, concordo plenamente com Winnicott, pois seria muito cruel atuar dessa forma frente ao analisando.

Meu desejo com essas poucas linhas foi colocar em pauta uma questão que para mim é atual, uma vez que mais do que nunca os analistas são pressionados a aconselhar, “resolver” o problema dos analistas (e para piorar de forma rápida), se responsabilizarem por vidas, a dar aos seus pacientes a felicidade que esses acreditam terem direito a, quer seja por questões de mercado como sociológicas.

Os números entre parênteses se referem a grade bioniana. (Ver O aprender com a experiência, Editora Imago)


Por Ale Esclapes