A comunicação silenciosa e a comunicação “ruidosa”: reflexões sobre a linguagem não-verbal em Winnicott

Por Vitória Mamede Maia e N. Pinheiro

A comunicação pré-verbal

Golse (1998) faz um pequeno resumo da questão da simbolição. Inicia seu pensamento se perguntando: O homem descende do signo? E reflete “se a capacidade de produção de signos é ou não o que fundamenta, do ponto de vista evolutivo, o processo de humanização, de hominiação, ou seja, o acesso a uma certa hominitude”. (p.69) Após um longo percurso, este autor situa que o “signo é anunciado por todo um registro de pré-simbolização (no nível dos envelopes)”. (p.80) Aqui, neste ponto de seu artigo, Golse (1998) coloca que a psicanálise dos continentes (Eu-pele, holding, envelopes físicos) se desenvolveu sobre as aquisições de uma primeira psicanálise dos conteúdos (percepções, afetos, fantasmas, idéias). Assim sendo tanto para Golse, como também para , o signo somente aparece como importante, e como tal, após um longo percurso, “durante o qual a sintonia afetiva transmodal da mãe e a capacidade perceptiva do bebê talvez forneçam certas raízes de metaforização”. Parece que “há primeiro toda uma atividade de representação, servindo a fins pessoais, para se sentir pensar (ou seja, sentir-se existir) e colocar um pouco de ordem em suas sensações e percepções”. (Golse, 1994:83) Tentando pensar essa questão da pré-verbalidade, escolhi Winnicott e sua teoria de comunicação para desenvolver a questão da sintonia afetiva transmodal entre a mãe e o bebê.

A comunicação não-verbal em Winnicott: uma questão de criatividade e condescendência
Winnicott, em muitos lugares de sua obra, reflete sobre a questão da comunicação entre o bebê e sua mãe. Gostaria, com este trabalho, relacionar o que este teórico denomina de comunicação silenciosa com a questão da criatividade primária e a agressividade primária, entendendo esta última como um gesto criativo e também como uma comunicação necessária para que o bebê se constitua enquanto sujeito. Inicio com dois “poemas” de Winnicott:

“Encontro você; você sobrevive ao que lhe faço à medida que a reconheço como um não-eu;  Uso você; Esqueço-me de você; Você, no entanto, se lembra de mim;Estou sempre me esquecendo de você; Perco você; Estou triste.” (Winnicott, 1994:92)

“Quando olho, sou visto; logo existo. Posso agora me permitir olhar e ver. Olho agora criativamente e sofre a minha apercepção e também percebo, Na verdade, protejo-me de não ver o que ali não está para ser visto (a menos que esteja cansado)”.  (Winnicott,1975:157)

Esses poemas destacam os pontos principais para Winnicott sobre a questão da comunicação entre o bebê e sua mãe. No primeiro, coloca-se a questão da comunicação criativa, o encontro com o objeto, o objeto subjetivamente concebido, o objeto objetivamente percebido e suas patologias. No segundo, a questão da experiência de mutualidade mãe-bebê, a questão do holding, da comunicação silenciosa e do olhar como espelho.

A comunicação mãe-bebê: a importância da comunicação silenciosa

“A fim de estudar a maneira pela qual o bebê humano chega à capacidade de objetivar, é necessário aceitar que, a princípio, não existe tal capacidade. (…)” (Winnicott, 1994:196)

Antes de a linguagem ser verbal e nomear o mundo que a cerca, há uma outra linguagem: a linguagem silenciosa – a comunicação não-verbal. Para Winnicott a comunicação silenciosa é uma comunicação inconsciente. A habilidade de comunicar-se não está fundada, inicialmente, na aquisição da linguagem, mas sim em uma interação pré-verbal estabelecida por intermédio da “mutualidade”.

Conseqüentemente, a habilidade do bebê de brincar e simbolizar precede o período em que passa a fazer uso de palavras. Winnicott ressalta a importância dessa comunicação para a constituição psíquica do bebê e a denomina de comunicação silenciosa. Também enfatiza a prioridade da mutualidade nas relações bebê-mãe para que o bebê possa manter sua continuidade de ser no mundo, e assim poder sair da sua dependência absoluta em relação ao meio que o sustenta para uma independência relativa, e depois rumar para a independência frente ao meio, independência esta que jamais se completa, já que o meio estará sempre sendo importante para o ser humano.Conquista para o bebê; identificação da mãe com o bebê: a mutualidade coloca em cena uma linguagem muda, silenciosa, que passa pelos batimentos cardíacos, os movimentos da respiração, o calor do seio, movimentos do bebê que indicam à mãe a necessidade de mudança de posição do bebê. Cria-se, aqui, uma técnica primitiva de intercomunicação, que somente se torna ruidosa, segundo Winnicott, se esta intercomunicação falha em algum aspecto e se instaura a falta de confiabilidade.

Segundo Winnicott (1994) “é aqui que se dá a diferença entre perfeição mecânica e amor humano”. (p.87) Logo, a comunicação silenciosa se constitui a partir do holding materno em relação ao bebê, e coloca em cena, principalmente, a questão da confiabilidade do bebê no ambiente que o circunda. Essa confiança advém da proteção necessária ao bebê, por parte da mãe, em sua preocupação materna primária, em relação aos impingments que o meio, externo a essa díade, possa cometer. Diz Winnicott (1994) que “a sustentação confiável de um bebê é algo que precisa ser comunicado, e isto é questão das experiências do bebê. Exatamente aqui a psicologia envolve a comunicação em termos físicos, dos quais a linguagem é a mutualidade na experiência”. (p.202) Quando não há, em relação ao ambiente, nem privação nem perda dominando o mesmo, e assim o ambiente facilitador é tido como certo, gradativamente há, no indivíduo, uma mudança na natureza do objeto. Essa mudança se reflete diretamente na capacidade de comunicação do bebê. “O objeto, sendo de início um fenômeno subjetivo, se torna um objeto percebido objetivamente”. (Winnicott, 1983:164) Com a mudança do objeto, de subjetivamente concebido para objetivamente percebido, a criança irá deixando para trás a área de onipotência como uma experiência de vida. Porém, antes de isso acontecer, o que é predominante é o objeto subjetivamente concebido. Assim, “na medida que o objeto é subjetivo, é desnecessário que a comunicação com ele seja explicita”. (Winnicott, 1983:166)
No estágio inicial de relacionamento intersubjetivo mãe-bebê, na sua fase de dependência absoluta, há, por parte do bebê, uma experiência de onipotência absoluta. Para Winnicott, essa onipotência deve ser entendida para além do controle mágico, incluindo-se como um aspecto criativo da experiência, já que “a adaptação ao princípio da realidade deriva espontaneamente da experiência da onipotência dentro da área que faz parte do relacionamento com objetos subjetivos”. (Winnicott, 1983:164) Dentro de um ambiente facilitador, o bebê cria e recria o objeto, “e o processo gradativamente se forma dentro dele e adquire um apoio na memória. (…) Normalmente o lactente cria o que de fato esta a seu redor esperando para ser encontrado. E também aí o objeto é criado, e não encontrado”.(Winnicott, 1983:165/66) Assim, “a comunicação tem a sua origem na transmissão de estados afetivos entre a mãe e o bebê, o que vem a constituir-se na mutualidade. Os sentimentos que a mãe passa a nutrir, em relação ao bebê ainda não nascido, tem sua origem, que é bastante imaginativa, na mais tenra infância dela. O bebê percebe os sentimentos que sua mãe lhe dirige desde o útero”. (Abram, 2001:65)

Para Winnicott (1994), a comunicação mãe-bebê traz em si mesma uma dicotomia, já que a mãe já foi um bebê um dia, podendo retroceder às suas experiências, “mas para o bebê é impossível apresentar a sofisticação característica de um adulto. Desta forma, a mãe pode, ou não, falar com seu bebê; a língua não tem importância”. (Winnicott, 1994: 84) A partir dessa experiência de mutualidade e do processo de comunicação que o bebê estabelece com sua mãe, Winnicott faz referência a dois tipos de bebês: Os bebês que puderam experimentar um ambiente confiável e assim acolhem a comunicação silenciosa proveniente do holding de sua mãe. Aqui há a clivagem necessária entre querer ou não se comunicar. Esses bebês possuem o direito de escolher entre uma comunicação e a outra. Os bebês que tiveram mães que não deram a eles um holding necessário, e assim recebem uma comunicação traumática, um “pesado choque”. Este choque é descrito, por Winnicott, como sendo um estado confusional e um estado de agonia de desintegração Aqui, o bebê não possui a capacidade de escolha entre se comunicar ou não se comunicar, ou possui esta opção diminuída pelo impingment sofrido.

Segundo Abram (2001), “o fundamental em Winnicott, no que diz respeito à comunicação, é que cada indivíduo constitui-se como isolado e, em conseqüência disso, o direito a não se comunicar deve ser respeitado. Temos aqui um dos paradoxos winnicottianos: “É um júbilo estar escondido e não encontrar a desgraça” (pp.72/73) Winnicott (1994) sugere que a comunicação mãe-bebê seja resumida em termos de criatividade e condescendência. “Sobre isso, deve-se dizer que, quando há saúde, a comunicação criativa tem prioridade sobre a condescendência. A partir de uma percepção e de uma relação criativa com o mundo, o bebê pode se tornar capaz de sujeitar-se sem perder a dignidade”.(p.91)

A agressividade primária como uma forma de comunicação com o mundo

A palavra agressividade, na teoria winnicottiana, suscita um lado de entendimento do significado dessa palavra que escapa a seu uso “normal”, posto corriqueiro. Para Winnicott, agressividade é sinônimo primeiramente e fundamentalmente, de motilidade, de força vital do feto/bebê em seu primeiro encontro (casual) com o meio. É através do impulso agressivo que o feto encontra o meio, sendo do jogo constante do encontrar e do desencontrar, que este meio começa a surgir para este bebê, e que este bebê começa a surgir para este meio.Portanto, para o bebê, é a sua motilidade e a sua sensorialidade que criam o meio. O movimento agressivo o faz encontrar a mãe, seja no chute dentro da barriga materna, seja no impulso de sugar o seio na hora de mamar. Dessa forma, a agressividade do bebê o faz trocar com o mundo/meio, e a oposição que ele encontra numa relação é, para ele, a troca em si. Essa troca, advinda da apercepção da oposição, instaura, para ele, bebê, um sentido de realidade. Aqui se coloca uma diferenciação importante na teoria winnicottiana entre apercepção e percepção. Segundo Winnicott, a apercepção está ligada ao estágio da dependência absoluta, na qual o bebê, onipotentemente cria seu mundo e lida com objetos subjetivamente concebidos; já a percepção estaria ligada ao estágio da dependência relativa, na qual o bebê já é capaz de perceber-se como diferenciado do objeto, se constituindo como um eu separado de um não-eu, percebido como ser total.
Assim, em Winnicott, colocar como ponto de partida a idéia de força, que pode ser observada e vivenciada, é falar a partir do lugar de uma dimensão da experiência e do vivendo, e não a partir de uma pré-concepção, de uma construção metafísica ou metapsicológica. O que marca a diferença seria como o meio ambiente acolhe esta força e como esta força é acolhida; o que difere realmente é o encontro de um meio que irá ou não facilitar um potencial que bebê já tem. Agressividade é, portanto, parte da “força vital”, e a conversão desta força vital, que advém da “vitalidade dos tecidos e dos primeiros indícios de erotismo muscular”, em potencial agressivo ou agressividade, irá depender da oposição que o feto possa vir a encontrar em seus movimentos na sua vida intra-uterina, e enquanto bebê, quando, através da boca, encontrar o seio da mãe. A agressividade primária seria um amor-de-boca. Winnicott (1994) situa a agressividade primária como uma maneira de o lactente se comunicar com o meio. O amor-de-boca institui uma comunicação “na medida em que se desenvolve uma situação de alimentação mútua. O bebê dá de comer e a experiência dele inclui a idéia de que a mãe sabe o que é ser alimentada”. (p.198) Em contrapartida, a agressão experimentada pelo lactente, que faz parte do erotismo muscular, do movimento, e de forças irresistíveis encontrando objetos imóveis, constrói para ele o mundo, como vimos. Esta agressão, e as idéias ligadas a ela, levam ao processo de colocar o objeto separado do self na medida em que o self começa a emergir como uma entidade. Logo, a agressividade primária é criativa e se constitui como um meio de comunicação do bebê e o mundo que ele primeiro apercebe (objeto subjetivamente concebido), e depois percebe (objeto objetivamente percebido).
Desta forma, a realidade de um ato advém da oposição que este ato encontra. Surgindo daí a possibilidade que as primeiras trocas entre o indivíduo e o meio se tornem experiência do bebê, algo que será incorporado no bebê. Winnicott verá este ato dirigido para fora como um gesto impulsivo e espontâneo, que se torna agressivo ao encontrar oposição. Esse ato se funde facilmente às experiências eróticas que aguardam o recém-nascido, e assim sendo, “é esta impulsividade, e agressividade que dela deriva, que levam o bebê a necessitar de um objeto externo, e não apenas um objeto que o satisfaça”.(Winnicott, 2000, p.304). Assim, dentro deste raciocínio winnicottiano, pode-se dizer que o indivíduo age ou reage: quando age, o impulso é seu; quando reage, o impulso advém do outro e não é um gesto espontâneo ou criativo. O agir traz o bebê à saúde psíquica; o reagir demonstra a, nem sempre percebida, doença.

A agressividade primária, vista como um gesto espontâneo, quando acolhida, fornece ao bebê a idéia de criação. Talvez essa seja a primeira e maior comunicação que possa haver entre o bebê e o meio, já que a partir deste gesto, o bebê descobre a mãe porque esta vai ao encontro dos gestos espontâneos do seu filho, dando-lhes um significado quando atende às necessidades dele. Se ocorrerem, nesse encontro, falhas maternas graves ou excessivas, o bebê experimentará uma sensação de aniquilamento. Um bebê aniquilado não agride, nem se comunica com o mundo. A agressividade primária estaria, portanto, amalgamando afetividade e agressividade, fundindo e desfundindo a sexualidade que ela vivencia pela boca, a partir do ato de mamar. O bebê precisa poder odiar ou retaliar sem medo, para poder mais tarde reparar o dano que acha ter cometido. Assim a agressividade primária instaura a possibilidade de amar, criar e reparar. Haveria alguma comunicação silenciosa mais importante do que esta para o destino do bebê enquanto sujeito humano?

Winnicott (1996) se questiona, ao falar da agressividade inicial da criança: “Pode alguém comer seu próprio bolo e continuar a possuí-lo?” (p.70) Acredito que a resposta, mais uma vez, dependa do ambiente que esta pessoa tiver encontrado ao longo de sua vida, principalmente no início desta.  Conforme foi visto, se a criança tiver tido um ambiente facilitador, que nos termos de Winnicott corresponderia a uma mãe suficientemente boa, que teria dado ao seu bebê não somente handling, mas principalmente holding, tendo permitido ao bebê experienciar a mãe-objeto e a mãe-ambiente, através da experiência de mutualidade, esta criança poderá exercer a sua agressividade, vivenciá-la e sobreviver a ela, integrando-se com um ser total. Aqui ela teria podido comer o bolo (mãe) e continuar a possuí-lo (a mãe sobreviveu a todos os seus ataques e foi internalizada como objeto total). Se o ambiente não tiver sido propício nem facilitador, muito pelo contrário, tiver sido intrusivo e ameaçador, a criança terá muito medo de “ter comido o bolo” e, de certo, o “vomitará” em seguida, sem vivenciá-lo como seu porque acreditará que o destruiu quando o comeu ou tentou comê-lo. Mas se Winnicott está certo (e na minha opinião, ele está), esta criança continuará a procurar bolos até encontrar um que resista a seus ataques e ela possa comê-lo e internalizá-lo como sendo seu, e assim ela terá comido o bolo e continuará a tê-lo. Aqui Eros e Tanatos estarão unidos e a agressividade se transformará em algo criativo e criador de vida e não de uma casca, eco vazio de um ambiente que a criança tenta em vão se ajustar e agradar sem nunca conseguir, ou a atuar sua agressividade em forma de destrutividade.  Estaríamos, aqui, diante de uma comunicação ruidosa, quando deveria ser sempre silente.

Referências Bibliográficas
ABRAM, Jan.(2000) A linguagem de Winnicott: dicionário das palavras e expressões utilizadas  por Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter.
GOLSE, Bernard.(1999)  O início do pensamento ou o homem descende do signo? In: SOULÉ,  Michel. A inteligência anterior à palavra: novos enfoques sobre o bebê. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.
MAIA, Maria Vitória C. Mamede (2007) “Rios sem discurso” : reflexões sobre a agressividade da infância na contemporaneidade. SP: Vetor.
WINNICOTT, D.W.(1996)Agressão, culpa e reparação In:______. Tudo começa em casa São Paulo: Martins Fontes.
WINNICOTT, D.W.(1994) A experiência mãe-bebê de mutualidade. In: WINNICOTT, Clare Explorações Psicanalíticas: D.W. Winnicott. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.
WINNICOTT, D.W.(1975) O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. IN: WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.
WINNICOTT, D.W . A comunicação entre o bebê e a mãe e entre a mãe e o bebê: convergências e divergências. (1994) In: WINNICOTT, D.W Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.
WINNICOTT, D.W. Comunicação e falta de comunicação levando ao estudo de certos opostos.(1983) In : WINNICOTT, D.W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas.

 

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A partir de três trabalhos de Freud (Projeto para uma psicologia cientifica, A interpretação dos sonhos, e Dois princípios do funcionamento mental), Bion explora os conceitos de notação e atenção. A notação seria uma palavra mais ligada a armazenamento de informações. Não gostaria nesse artigo de discutir as particularidades desse processo, mas gostaria de deixar claro o aspecto de armazenamento de uma informação que é possível a partir da percepção.

Já a atenção é um ato intencional que visa utilizar o aparelho de percepção a fim de buscar algo. Esse algo pode se relacionar tanto ao mundo interno quanto ao mundo externo. Existe, portanto nesse movimento da atenção uma intenção, um desejo. É importante essa distinção, pois a notação, por si só não é fruto de um desejo, conquanto a atenção sempre o é.

Aqui reside o fundamento de um importante artigo de Bion sobre memória e desejo. A memória é a atenção voltada as notações do passado, ou em outras palavras, a memória é fruto do desejo. Observe-se aqui que memória não tem uma função de arquivo, mas dinâmica.

A partir desse posicionamento Bion coloca uma questão ética: pode o desejo do analista influir na análise? Cabe no enquadre aparecer outro desejo que não o do analisando? Daí a sua famosa indicação aos analistas: conduzir um tratamento sem desejo e sem memória. Memória aqui é o passado do desejo, ou em uma outra interpretação, nascem do mesmo impulso.

A partir disso, em que deveria residir a interpretação do analista? Em sua atenção? Em sua memória? Bion toma uma posição radical em relação ao tema: a interpretação deve residir sobre a notação, e não sobre a atenção ou memória. Inclui-se na memória toda a teoria que o analista dispõe sobre psicanálise, sendo que esta deve acontecer a cada sessão. Uma determinada teoria serve para explicar um determinado caso, uma determinada sessão, mas depois deve ser esquecida. Qualquer interpretação que contenha elementos teóricas, uma construção, esta contaminada com os desejos e a memória do analista. O linguajar comum, deve ter elementos suficientes para que se elabore uma interpretação baseada no que se nota no enquadre.

Apesar de simples, essa questão da ética bioniana é um dos aspectos mais difíceis de sua técnica, uma vez que o analista precisa mais do que nunca estar focado no aqui e agora, imediato e mediato que ocorre entre analista e analisando, pois somente isso pode servir como elementos para notação. Exige-se uma presença do analista ao mesmo tempo que todo seu aparelho perceptual, incluindo-se aqui sua intuição, devem estar aberto para serem impressionados pelo analisando. Uma interpretação que não seja baseado nisso, não tem para Bion, valor terapêutico.

Por Ale Esclapes

 

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No presente texto procuraremos voltar o olhar para o tema da frustração e sua relação com a psicanálise, assim como tentar tecer alguns comentários sobre seu papel na atualidade. Esse tem sido um tema recorrente em análises feitas sobre a contemporaneidade e suas implicações para o sujeito psíquico em suas relações com os temas de seu tempo. Amor, trabalho, lazer, relações sociais, relações de vínculos familiares, conquistas, atividade sexual, paternidade, maternidade, consumo de bens, acumulação de patrimônio etc. Não há área do fazer humano onde esse conceito não assuma uma importância elevada.

Costumamos no senso comum contrapor desejo à frustração e veremos que em psicanálise não é necessariamente essa fórmula que encontramos como aquilo que constrói a capacidade humana de obter prazer. Ao formular a 2ª Tópica com suas diferentes instâncias, Freud se dava conta que o “Princípio de Prazer” não era assim uma reta constante, uma meta tão diretamente compreensível, entendeu que a caminho da descarga necessária haveria um intrincado entrelace e muitos senhores a se atender, e postulou que haveria nessa busca, aquilo que ele passa a denominar de “Princípio de Constância”, que se traduziria por uma busca do aparelho psíquico em manter um nível sempre constante e baixo de carga. Existirá também aí uma questão voltada à evitação do desprazer, sentida sempre quando há aumento dessa tensão. “Podemos dizer que o maior conflito humano está exatamente no desejar, pois dos pontos de vista econômico, dinâmico e tópico(metapsicologia)cria tensão no aparelho psíquico”. A questão do “adiamento” da satisfação passa mais do nunca a ter em psicanálise um valor fundamental para a economia e dinâmica psíquica.

Essa é uma tese psicanalítica, que frente às questões mais atuais do homem no mundo, ganha cada vez mais um contorno importante para que seja estudada por essa via conceitual.

Porém pensamos aqui, que mesmo que visando a redução de tensão pelo princípio de constância, ou movido pela Pulsão de morte no princípio de nirvana, há uma intenção de prazer quanto ao objeto em si, a ligação com ele será o alvo e a meta primeira, mesmo sabendo que esse prazer se dá em forma de descarga e diminuição da tensão dentro do aparelho. Freud mesmo diz que a questão humana está no estabelecimento dos laços afetivos, ou como diriam outros autores, na relação de objeto ou vínculo.

Se o conflito humano está no desejar, a morte está no não-desejar, então por isso desejo é o que nos move sempre por Eros, realimentando sempre a carga antes que a morte ganhe em termos de cessar toda e qualquer carga ou tensão dentro do aparelho psíquico. Desejamos porque viver é desejar e não desejar é morrer.

Lida a psicanálise na atualidade com diferentes quadros que têm sido predominantes como adoecimento do sujeito psíquico frente à sua realidade interna. Os distúrbios alimentares chamam a atenção cada vez mais de inúmeros especialistas de diferentes áreas. Partiremos aqui de uma leitura daquilo que hoje está posto como “anorexia nervosa”, conceito esse que sabemos já descrito desde o século XIX: “consumpção nervosa”. “No ano de 1694, Richard Morton é autor do primeiro relato médico de anorexia nervosa” (A)

Para a leitura desse distúrbio tão presente nos estudos atuais, queremos apenas considerar aqui a tradução lacaniana desse distúrbio, que o colocará como “desejo de nada”. A partir desse conceito construir uma possível suposição da presença do sujeito frente ao ato de desejar, cada vez mais tomado pela grande maioria com voracidade, muito se discute sobre o acesso constantemente facilitado ao chamado “fast-food”, estendendo-se essa leitura do “rápido” para as emoções e atos humanos em todas as suas possibilidades.

Dois grandes filmes na década de 70 abordaram essa temática do desejo e sua realização ilimitada e sua relação com o nada. São eles, o chocante “A Comilança”((Le Grande Bouffe) de Marco Ferreri(1973) e“Império dos Sentidos” de Nagisa Oshima(1976), de alguma maneira esses filmes encontraram o Inconsciente e manifestaram antes de toda a compreensão sobre nossos tempos, a questão central que iria mobilizar tudo que envolve o desejo humano frente às suas questões de realização ou adiamento. Culminando os dois naquilo que seria a vitória de Thanatos, a morte do organismo vivo.

Há algo disso que nos atravessa todo o tempo na atualidade, e longe de construir um discurso pessimista e derrotista frente ao tema, queremos aqui nesse texto sublinhar sua problemática e talvez resgatar algo de esperançoso diante de tudo isso. Missão impossível? Talvez, quem sabe, mas como diriam muitos , se não ousarmos, se não sonharmos, qual possibilidade de mudança do real poderemos esperar?

“Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar”.
(Livro do Desassossego – Fernando Pessoa[Bernardo Soares])

Então fica o aviso ao leitor, embora haja todo um traçado teórico nesse texto, ele não será em nenhum momento a tradução apenas de teorias e muito menos pretende ser um tratado científico sobre a questão. Se isso lhe parecer uma tarefa sem importância sugiro que abandone sua leitura desde já.

Quando Freud analisa a questão dos postulados da cultura para o homem, suas exigências e leis em em textos como “O Mal Estar da Civilização” ou então no magnífico “Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna” já colocava a necessidade de uma certa sublimação para que a cultura avance, assim como a necessidade inscrita em cada aparelho psíquico de adiar para uma maior gratificação. Podemos aí traçar um paralelo com a atividade sexual propriamente dita, onde toda organização parcial que antecede ao ato sexual em si, com sua primazia na genitalidade, se constitui como fundamental para que o ato sexual se traduza ao final como descarga prazerosa.

A pergunta que começa a ser traçada dentro da leitura que fazem muitos teóricos sobre nosso atual momento, chamado e nomeado por muitos como pós-modernidade, seria se essa capacidade de adiar estaria sendo suprimida em nome de um controle social, meio que aos moldes do visionário “soma” na obra “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley (1932), onde o encontro romântico passa a ser a verdadeira transgressão, aquilo que será impedido pela lei. Até onde estaremos transformando desejo em ato de consumir, ligado a toda e qualquer atividade humana e jogando nossas angústias existenciais no mais profundo vazio, ausente de eco e encontro afetivo? Essa tem sido uma das leituras possíveis dos acontecimentos, e com certeza dá conta de grande parte do que vem ocorrendo em relação às angústias e adoecimentos do sujeito frente aos novos modelos de vida. Supomos apenas que essa não será a única leitura possível.

Teremos que pensar que a organização de vínculos que existia antes de todas as transformações que ocorreram alavancadas em mudanças sócio-históricas, econômicas e subjetivas, essas últimas bastante inspiradas pelos constructos da psicanálise, não era assim algo que garantisse uma felicidade, muito pelo contrário, tenhamos como evidência as histéricas de Freud. Toda supressão e demonização da atividade sexual, assim como a forte convicção na manutenção das instituições acima do desejo do sujeito, não eram assim um traçado muito convincente para a realização e gratificação. Isso foi bem visto por inúmeros escritores, teóricos, poetas, filósofos e psicanalistas. A tal família nuclear assentada na instituição casamento mostrou um antagonismo entre essa organização e o ideal romântico. Vivemos a era da falência desse modelo, onde uma nova concepção de família tem tentado questionar a velha e desgastada obrigatoriedade de continuidade a partir do ideal romântico: e foram felizes para sempre. O sujeito psíquico vive hoje uma eterna luta entre seu desejo e seus ideais sociais de aceitação.

Existirá alguma forma de conciliação entre seus pólos? E aos conservadores que culpam a modificação dessas instituições como as que estariam provocando todos os males, não nos caberia perguntar se dá para arrumar armários sem antes bagunçar tudo que está dentro?

Por outro lado, a liberdade sexual da qual hoje dispõe grande parte dos habitantes do nosso planeta, não tem levado a uma vivência de satisfação e gratificação suficiente para o aparelhamento psíquico. Vemos surgir novas(ou renomeadas) patologias e uma grande queixa quanto a um vazio existencial que tenta suprir-se naquilo que seria o ato de consumir vorazmente bens, relações, tarefas, ideais etc. Esse vazio tem sido respondido pela indústria farmacêutica com a fabricação cada vez mais insistente dos psicofármacos, temos outro filme para “falar” por nós dessa época que é o “Geração Prozac”. Não estamos dizendo aqui, que não seja importante podermos dispor desses medicamentos, mas sim que talvez seu uso esteja alargando demais a finalidade que deveriam ater-se. Tampar angústias do existir não deve ser, pelo menos para o modelo da psicanálise, um fim em si mesmo. A angústia revela, ou tenta revelar, que algo está fora do lugar, que a economia psíquica precisa ser reencontrada, que há tirania na negociação entre os senhores da nossa felicidade.

“Uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos. Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação, que posteriormente identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações a qualquer momento, ao passo que, de tempos em tempos, outras fontes lhe fogem – entre as quais se destaca a mais desejada de todas, o seio da mãe -, só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro. Desse modo, pela primeira vez, o ego é contrastado por um ‘objeto’, sob a forma de algo que existe ‘exteriormente’ e que só é forçado a surgir através de uma ação especial”.(1)

Nessa dinâmica se inaugurará todo protótipo da busca humana, de toda movimentação que visa encontrar no outro ou em algo fora do seu mundo interno, ou do auto-erotismo, para gratificação dos incessantes impulsos do id. Se no início tudo era id, não por muito tempo assim permanecerá, logo surgirá aquilo que se formará como ego, para sempre um conciliador entre diferentes impulsos, mediando realidade, o superego que se formará logo adiante e todas as solicitações do id, movido pelo Princípio de Prazer e pelo Além do Princípio de Prazer, o Thanatos que há desde o início, ali aliado sempre como o componente que leva à ação. Esse ego que é antes de tudo corporal.

“A patologia nos familiarizou com grande número de estados em que as linhas fronteiriças entre o ego e o mundo externo se tornam incertas, ou nos quais, na realidade, elas se acham incorretamente traçadas. Há casos em que partes do próprio corpo de uma pessoa, inclusive partes de sua própria vida mental – suas percepções, pensamentos e sentimentos -, lhe parecem estranhas e como não pertencentes a seu ego; há outros casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio ego e que por este deveriam ser reconhecidas. Assim, até mesmo o sentimento de nosso próprio ego está sujeito a distúrbios, e as fronteiras do ego não são permanentes”(1)

O ego é maleável, flexível e busca sempre adaptar-se, sobreviver, agrega na Pulsão de Vida as pulsões de auto-conservação presentes na dualidade da 1ª teoria pulsional e depois reunidas com as sexuais formando o postulado da Pulsão de Vida que se contrapõe a Pulsão de Morte. Como nos diz o escritor Albert Camus seria da natureza humana adaptar-se a tudo, sobreviver sempre, mesmo nas mais adversas condições.

“Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe”.
(O Mito de Sísifo)(B)

Há Eros e Thanatos, há vida e morte, alento e desespero, amor e ódio, prazer e dor, desejo e frustração; pares que nos movem no dualismo freudiano.

Criamos um mundo que avança em seus ideais de gratificação urgente, em que o tempo corre cada vez mais acelerado, desconhecendo a física e implantando a lógica do psíquico em seu estado atemporal. Mas se há nisso um vazio, deve existir aí também algo de meta da construção da cultura, porque se nos matamos, também é verdade que todo tempo sobrevivemos, até o fim inevitável. A pergunta que podemos nos fazer frente ao tal vazio apregoado pelos novos profetas, pela filosofia contemporânea, seria a de que meta de vida possa haver em tudo isso? Porque com certeza alguma há. É bobagem dizer que o mundo hoje é pior que a velha cela na qual homens e mulheres se encarceravam antes. Caminhamos em um ritmo humano, construindo e desconstruindo como foi sempre, desde tempos imemoráveis.

“Sendo o Inconsciente patrimônio de todo e qualquer ser humano, com tudo o que ele representa de infantil, extemporâneo, atemporal, imutável, esta dimensão vai ter expressão e consequências extremamente amplas nas sociedades e nas culturas humanas”.(Sérgio Telles) (B)

Vivemos hoje um tempo de perguntarmo-nos onde velhos e novos modelos levam o homem ao caos que é o que na verdade provoca toda possibilidade de mudança, negar isso é negar-se a ver toda movimentação viva que faz avançar as relações humanas dentro de um mundo/cultura onde tudo pode e está efetivamente sendo transformado, transmutado. Há um ideograma chinês, comentado por alguns terapeutas alternativos que representa bem esse olhar para os novos tempos, ele diz assim: Crise= Risco+possibilidades. Perdemos muito com os novos tempos, mas ganhamos muito também, não jogamos para perder, disso sabemos.

Com certeza nossas relações de vínculo estão bastante modificadas, há nisso uma modernidade assustadora, homens se pensam como máquinas e pensam nas máquinas como homens. Época onde muitos buscam a tal AI(Inteligência artificial), onde a religião cada vez mais se aproxima da ilusão da qual Freud falou, a despeito de todo antagonismo que isso provocou à época. Perdidos e assoberbados por mais estímulos do que podemos suportar, buscamos algum momento de silêncio, do nada, da contemplação. Ainda o encontramos, nas raras ocasiões em que nos tocam quase que como por acaso dentro dessa grande rede que o planeta se transformou. Deprimimos porque temos medo, ou simplesmente porque precisamos de um momento de quietude? Paramos acuados frente a um mundo que afinal, foi criado pela capacidade humana, por sua inesgotável sede de conhecimento e domínio sobre as leis da natureza intra e extra-corpórea. Falamos hoje em uma nova postura, nova ecologia, hamonização com o meio-ambiente. Se alguns nos pensam como câncer do planeta, somos também sua vacina. Trazemos morte e vida.

E tudo começa em cada indivíduo, esse sujeito desejante da psicanálise, ser que fala, que traz representações para o mundo simbólico.

“As percepções e concepções regidas pelo princípio da realidade devem se impor sobre aquelas regidas pelo princípio do prazer. A realização alucinatória do desejo, própria do funcionamento do processo primário, deve ser substituida pela procura na realidade da realização do desejo, segundo o processo secundário. O “wishful thinking”, o pensamento permeado pela realização de desejo, deve ser substituído pelo pensamento regido pelo reconhecimento possível da realidade. Na linguagem lacaniana, o real é inacessível, e a realidade é o produto resultante da rede simbólica e imaginária jogada sobre o real. Na linguagem freudiana, a realidade será sempre fruto de uma Weltanschauung, uma cosmovisão”.(Sérgio Telles) (B)

E onde entrará aí o objeto desse texto, a frustração? Podemos dizer que cada item que foi tocado até aqui só poderá trazer sentido para nossa reflexão, se entendido desde sua capacidade de frustrar-se, ou de adiar satisfação em estado permanente de busca. Nesse jogo com esse real inacessível temos um ego capaz de suportar essa verdade, de fazer testes de realidade e realizar ou adiar, gratificar ou sublimar. O ego entende que em todo ganho há perda, entre a negociação que estabelece entre seus três senhores: id, superego e realidade. Aquele que não consegue coordenar essa atividade, adoece, paralisa, ou simplesmente desiste da força de Eros, emprestando a Thanatos toda a capacidade de agregar inerente a vida.

Chegamos a nos confrontar com isso na clínica quando “aqueles pacientes que não aceitam serem frustrados, acabam por nos atacar na transferência, muitas vezes regredindo em sintomatologia(ataque indireto), ou mesmo com silêncios, faltas, atrasos, ameaças de interrupção do tratamento etc”. ª

Freud chegou a postular em seu texto “O Mal estar na civilização” que “o sofrimento nos ameaça a partir de três direções”: nosso corpo, o mundo externo e nosso relacionamento com outros homens; e que a “infelicidade é muito menos difícil de experimentar”.

Podemos pensar nossas relações com o mundo a partir dessas premissas, entender que há movimento de avanço e retrocesso, prazer e luto em tudo aquilo que empreendemos esforços. E se hoje se pensa em uma demanda incessante e uma oferta enloquecida, poderemos talvez daí pensar em novos paradigmas para o fazer humano, que ainda resiste e por isso traz melancolia para tudo aquilo que de novo vem surgindo.

Lamentar perda de limites que aprisionavam, chorar por velhas instituições que manipulavam o desejo, buscar um sujeito perdido em arcaicas representações, será mesmo isso algo tão importante? Como um viajante aventureiro, talvez a questão seja fotografar o porto e virar a visão para o além-mar, como os desbravadores sempre fizeram desde que o mundo é mundo, ou que se pôde pensá-lo.

Concluindo:

“Não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que o mar me precede e me segue, e minha loucura está sempre pronta. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe. Eis porque sofro, de olhos secos, este exílio. Espero ainda. Um dia chega, enfim…”
(Albert Camus – “Do mar bem perto” )

Percebam que nesse presente texto, não há nenhuma oposição a toda construção que tem sido erigida sobre esse novo sujeito e sua subjetividade, ao que muitos chamam do novo quadro, os borderlines. Sem dúvida andamos no limite entre razão e desrazão. Apenas há uma tentativa de resgatar dessa movimentação algo que há no sentido do avançar que é inerente a toda atividade humana. Seria por demais pretensioso pensar independente de tudo que se tem falado sobre esse vazio do consumo estéril que hoje constrói esse sujeito angustiado. O que não é possível é que tenhamos que escolher entre o imobilismo e conservadorismo e a demanda estéril e desejo desenfreado. Freud há muito já nos mostrou o caminho do surto como tentativa de refazer o vínculo com o mundo externo, com essa realidade que mora entre o simbólico e o imaginário.

Para avançarmos acolhendo essa nova subjetividade, permeada e atravessada hoje por todas as engenhocas tecnológicas que criamos, antes de mais nada para nosso conforto e progresso, teremos que entender que fazemos parte dessa criação, somos seus usuários e criadores, e que há nisso, como dissemos antes, aspectos regressivos e progressivos, saúde e adoecimento, ganhos e perdas.

O navio parte e não dá para pular no mar e regressar ao porto, a aventura da viagem é inevitável.

“Não é arriscado supor que sob o regime de uma moral sexual civilizada a saúde e a eficiência dos indivíduos esteja sujeita a danos, e que tais prejuízos causados pelos sacrifícios que lhes são exigidos terminem por atingir um grau tão elevado, que indiretamente cheguem a colocar também em perigo os objetivos culturais”(2)

Esse texto de Freud de 1908, embora ainda não contemple toda a complexidade da questão formulada mais adiante por ele de acordo com o desenvolvimento da teoria psicanalítica, nos chamará definitivamente a atenção para algo de suprema importância para que entendamos tudo que irá relacionar-se aos desejos sempre impulsionando o sujeito psíquico e as barreiras que a cultura que ele forma irá colocar no caminho de sua realização através de suas leis representadas por suas instituições. Se aceitamos a tese do recalcamento, ditada pelo interdito como aquilo que forma a cultura, veremos que essa será sempre uma questão presente para entendermos o porquê realizamos e o porquê de adoecermos. Não é na verdade tão simples assim entendermos toda essa dinâmica, mas com certeza será sempre uma parte muito presente no discurso latente que procura o divã para renegociar em nome de um bem-estar perdido. No caminho da análise muitas vezes o insight será não o realizar o impulso, mas aprender a frustrá-lo, adiá-lo e gratificar de maneira mais completa logo adiante. Outras vezes, o caminho será renegociar impedimentos cruéis ou extemporâneos que impedem um realizar simples de um desejo de felicidade. O que poderemos ver, na prática clínica, é que escolher um caminho ou outro é uma tarefa que sempre demandará grandes esforços, dificuldade de escolha, aceitação de alguma perda e o risco de ser mais um grande equívoco.

“… entretanto, o fato de ter sido um médico americano o primeiro a compreender e a expor os aspectos singulares dessa doença*, devido a uma vasta experiência clínica, revela certamente a íntima conexão entre essa doença e a vida moderna, com sua desenfreada volúpia de bens materiais e seus enormes progressos no campo da tecnologia, que destruíram todos os entraves temporais ou espaciais à intercomunicação”.(2) *neurastenia

De alguma maneira estava lá em Freud uma antevisão do por onde caminharia a humanidade. Onde o traçado do desejo poderia perder-se em seu próprio avanço. Onde hoje se lê como consumo desenfreado e realização ilimitada que levaria a esse abismo existencial que vive hoje o sujeito.

Mas junto a essa desorientação da rota do desejo, hoje temos aquisições como preocupações com o meio-ambiente, uma revolução sexual que permite que se busque formas diversas de fazer pares, aceitação crescente da diversidade sexual, mães e pais que olham e tentam entender o mundo emocional de seus filhos, mulheres donas de seus corpos e das decisões sobre ele, homens que buscam o caminho do afeto e sexo em harmonia e tantos outros olhares diferentes. Pensar que só mudamos para o desafeto, ódio, fragmentação, consumismo etc não é a realidade por inteira. Talvez esteja na hora de olharmos para os dois lados das nossas transformações.

“Não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da felicidade. “O quê, por caminhos tão estreitos?…”. (B)

Bibliografia:

1 – “Mal Estar na Civilização” – vol XXI – Obras Completas Sigmund Freud

2 – “Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna” – Vol XIX – Obras Completas S. Freud

Links:

A – Transtornos alimentares: classificação e diagnóstico – Táki Athanássios Cordás
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832004000400003

B – O Mito de Sísifo – Albert Camus

http://filosofocamus.sites.uol.com.br/txtmitosisifo.htm

http://www.rubedo.psc.br/Artlivro/absurdo.htm

 

Por Denise Deschamps

Um famoso psicanalista chamdo Bion escreveu uma frase célebre que até hoje é discutida entre os psicanalistas – “O analista deve estar na sessão sem desejo e sem memória”. Eu me pergunto se todos nós não deveríamos estar no mundo “sem desejo e sem memória”. Mas antes de responder a minha própria pergunta, gostaria de analisar um pouco mais a fundo o que chamamos de memória.

Desde o nascimento, ou até mesmo antes, nosso corpo é bombardeado de sensações corpóreas, como quente, frio, dor, fome, desconforto, prazer, desprazer, e assim sucessivamente. Muitos de nós entendemos a memória como fiel depositária de todas essas sensações.

Quando crescemos adquirimos a fala, e através dela um novo universo se revela. A comunicação com o outro que até então era por meio do corpo a corpo, pode ser mediada por algo que não nos toca diretamente. E a partir daí está também criado um mundo psíquico onde as palavras, juntamente com imagens e sensações, vão formando nossa memória.

O tempo passa e nossas experiências com nossos pais, mães, irmãos, amigos, professores, além de ir formando um conjunto de experiências vão definindo quem somos nós. Uma bela pergunta nessa hora seria “qual a sua face antes de seus pais nascerem?”. Mas não vamos nos focar hoje nessa pergunta.
Tem um elemento importante que compõe a experiência da lembrança que é a “atenção”.  A cada segundo, podemos prestar atenção em apenas uma coisa. Podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo dizem alguns. Mas num segundo, ou numa fração de segundo, podemos fazer apenas uma coisa, pensar uma coisa. O pensar é a sucessão desses pensamentos ao longo do tempo. Se eles fazem ou não sentido ao pensador, também é outro ponto importante, que fica para outra hora.

Quando escolhemos algo em detrimento de todas as outras, ou seja, quando nossa atenção está direcionada, nesse ínfimo segundo para algum lugar, alguma pessoa, alguma situação, ou algum outro pensamento, todas as outras possibilidades se fecham nesse instante. Essa seleção do que pensar pode ser atribuída a uma coisa chamada “desejo”. Nossa seleção é direcionada pelo “desejo”.

Isso significa que quando olhamos para trás, no universo infindável de coisas que guardamos desde o nascimento em nossa memória, fazemos uma seleção. Nossa atenção vai e seleciona os fatos e dados e cria aquilo que chamamos de “lembrança”.

Lembrança seria, nesse sentido, nossa atenção selecionando pela atenção e pelo desejo aquilo que nos interessa, nos faz sentido, e descarta aquilo que não nos interessa, que não nos serve. A memória, ou lembrança, seria como uma conjugação do verbo “querer” no tempo passado.

Toda vez que uma pessoa nos fala livremente do seu passado, está falando inevitavelmente de seu desejo presente. Ela fala algo muito mais do que simplesmente lembranças. Fala do que gostaria de ter sido, do que gostaria de ser, do uso que essas lembranças podem servir no presente. Mas nunca, jamais, uma lembrança, uma memória, é ingênua. Ela é sempre a presentificação  do desejo.

Agora podemos pensar numa frase que Nietzsche escreveu em sua “Quarta consideração extemporânea – da utilidade e inutilidade da história para a vida”. Assim como muitas vezes somos dominados pelo desejo, muitas vezes somos dominados pelas lembranças, pelo passado. Mas aqui reside uma armadilha: muitas pessoas acreditam que o passado têm vida própria, que não podem escapar de suas lembranças, quando na verdade não conseguem escapar de seus desejos. Nesse caso o amo (o Eu) se rendeu ao seu escravo (o desejo), que passa a comandá-lo.  Não é mais o cachorro que abana o rabo, mas o rabo que abana o cachorro. Ou como disse Nietzsche – “O passado atormenta do homem”.

Por Ale Esclapes

No presente texto apresentarei alguns questionamentos que me acompanham ao longo desses bem mais de duas décadas de prática clínica. Recentemente me vi às voltas com o questionamento se ainda poderia chamar de “psicanálise” aquilo que conduzo  atualmente. Esclareço logo, antes de qualquer outra consideração que venha a fazer aqui, que não tenho resposta para essa questão, pelo menos não até o momento. O que me levou a escrever esse texto está assentado no fato que sigo acreditando  que um psicanalista tem sempre uma certa dose de ousadia e curiosidade e que isso seja algo que está inscrito nesse “ser” psicanalista.Um aspecto que acho importante ressaltar para de alguma maneira justificar o esforço desse texto, é que acredito que se escreva pouco, muito pouco mesmo, sobre a técnica em psicanálise e que aí, talvez, resida o cerne da minha questão, assim como, paradoxalmente, aí também encontro algo que vejo como conseqüência dessa mesma questão.

Ao pensarmos em questionamentos sobre a técnica psicanalítica, não poderemos deixar de pensar no nome de Sàndor Ferenczi, deixo  aqui a recomendação de leitura do prefácio ao seu livro “Escritos Psicanalíticos(1909-1933)”, prefácio esse, escrito por Joel Birman, e que nos aponta caminhos fecundos voltados para um pensamento sobre as questões da técnica em psicanálise, ressaltando esse autor, psicanalista reconhecido e atuante, a importância da publicação da obra de Ferenczi no Brasil, nos lembrando que trazê-lo ao debate dentro do movimento psicanalítico é corrigir uma injustiça histórica que ele sofreu, em grande parte articulada por Ernest Jones. Ferenczi chegou a ser chamado de “enfant terrible”, psicótico e um “herege da psicanálise”.  A correspondência entre Ferenczi e Freud também se constitui em leitura imprescindível para entendermos, inclusive, sua importância no curso das pesquisas de Freud. Vejamos esse interessante trecho de Birman em seu prefácio à obra de Ferenczi, que trazemos aqui no intuito de sustentar algumas das nossas questões:

“Então, a técnica em psicanálise é a resultante das exigências teóricas definidas pela estrutura do seu discurso conceitual e da orientação metodológica que se constitui como correlato necessário desta estrutura conceitual.

O que implica em afirmar  que a técnica é o que existe de mais variável no campo da clínica psicanalítica, onde podemos conceber teoricamente a existência de um número quase infinito de procedimentos e de manejos técnicos, desde que sejam compatíveis com as exigências fundamentais da teoria e do método psicanalítico”.(BIRMAN, J.)¹

A autora Joyce McDougall  em muitos dos seus livros, nos chama a atenção em alguns aspectos em particular, embora saibamos que inúmeros outros  estejam contidos em suas obras, talvez até mais interessantes ou importantes dos que os que nos deteremos aqui nesse texto, mas como foi dito anteriormente, esse texto aqui parte de questionamentos que nascem em algo que fala em primeiro lugar da minha própria prática, desse eu, aqui nesse caso que se apresenta como aquilo que é meu,  em uma clínica pretendida como psicanalítica.

Joyce McDougall chama a atenção  em primeiro lugar por sua independência de pensamento, assim como, também, pelo traçado teórico que vai compondo a partir da sua prática, constrói conceitos, estes assentados em uma práxis profundamente reflexiva e rica. Sua independência está evidente tanto na forma como aborda aspectos teóricos oriundos de mais de uma das linhas de pensamento dentro da psicanálise, assim como a forma como conduz sua técnica chegando a importantes conceitos que orientam tanto sua prática, como nos convidam a pensar na clínica que exercemos quando falamos em psicanálise. Pensar em histeria arcaica, forclusão na clínica da psicossomática, por exemplo, se torna algo bastante significativo na prática, ali onde a teoria e técnica necessariamente dão-se as mãos, se entrelaçam para servir de bússola para o par analítico.  Podemos nos perguntar se a ousadia de McDougall não estaria muito mais no ato de publicar sobre suas indagações do que no ato de executá-las na condução da sua clínica.

Outro nome que não podemos esquecer é o de Donald Winnicott, que empreende e imprime todo um traçado bastante próprio na aplicação do método psicanalítico. Mais adiante não podemos deixar de pensar em Heinrich Racker e Pichon Rivière, entre alguns outros que tocaram a questão da técnica ou desenvolveram conceitos a partir dela.
Voltemos mais um pouco a Birman:

“Da mesma forma, Freud enunciou em ‘Conselhos aos médicos sobre o tratamento analítico’, em 1912, que as regras técnicas que enunciara eram sem dúvida alguma o resultado de uma longa experiência clínica e que os analistas podiam evitar longos esforços inúteis em adotá-las. Porém, estas regras eram as que lhe “convinham pessoalmente”, mas que outros analistas com um “temperamento” diferente do seu podiam encontrar e adotar no processo analítico uma ‘atitude diferente’.

Portanto, na perspectiva teórica de Freud é impensável a existência de uma técnica analítica normatizada e universal. O que não quer dizer que o processo psicanalítico não obedeça a uma lógica rigorosa, que encontra sua fundamentação na teoria psicanalítica em reformulação permanente e numa precisa orientação metodológica”.(BIRMAN, J.)¹

Falar de pontos teóricos parece sempre trazer uma certa concordância, as questões surgem  quando se vai aplicar o método, construindo então, com os pressupostos da técnica, a psicanálise enquanto um fato, uma intervenção, uma realização(o ato de analisar). Sabemos que questões simples como: receber ou não um presente, responder a determinadas perguntas, dar ou não diagnóstico etc, não se encontrarão respondidas em uma simples “orientação de procedimento”. Essas serão sempre questões que a técnica em psicanálise responderá, mas responderá com algo que remete de volta ao par analítico, porque vai como tudo mais em análise, depender do singular daquele sujeito, do singular daquela transferência, dos inúmeros acordos construídos entre o sujeito analisando e o sujeito analista, entre os entrelaçados singulares das histórias que se atualizam no par da transferência. Cada indivíduo analista “revisita” a cada dia de trabalho tudo aquilo que o constrói enquanto sujeito no mundo, sujeito que atualiza seus vínculos e busca saídas em seu cotidiano. Ali, despido em frente ao seu analisando, enquanto se cobre com o manto invisível do suposto saber nele depositado e que nunca será realmente vestido. O rei está nu. Viva o rei! Assim é o analista na condução da análise, passeia nu com seu manto invisível.

Vejamos um bom exemplo apresentado por Ferenczi em sua obra citada acima, faremos um pequeno recorte:

“Todo método psicanalítico repousa sobre a ‘regra fundamental’ formulada por Freud, da obrigação do paciente em comunicar tudo que lhe vier ao espírito no decorrer da sessão de análise (…)No entanto, quando o paciente está já acostumado, não sem dificuldade, a seguir esta regra à risca, pode acontecer da resistência tomar precisamente esta regra, para tentar vencer o médico com as suas próprias armas. (…)Resta-nos apenas chamar a atenção do paciente para os modos tendenciosos desta conduta, ao que ele não deixará de responder, triunfante: apenas fiz o que me pediu, simplesmente digo os absurdos que me vêm ao espírito”. (FERENCZI, S. pág. 111)¹

Ferenczi aí está se referindo ao manejo dos neuróticos obsessivos. Está propondo aquilo que nomeou de “técnica ativa”, uma variação bastante significativa na técnica freudiana e que rendeu a Ferenczi toda a avalancha de críticas e perseguições que sofreu dentro do próprio meio psicanalítico.

Temos aí um bom exemplo do como as prescrições da técnica tomam aspectos diferenciados no singular da sessão analítica, sem perder de vista o método.

Sabemos, também, que outra importante sustentação para esse “ser” psicanalista é o seu compromisso com a transmissão, mais do que formar outros analistas, esse compromisso permite colocar em discussão a psicanálise atuada pelo analista. Nesse ponto se colocarão em evidência as questões institucionais que cercam todo saber psicanalítico, instituições essas que, assim como qualquer uma das outras, sofrem sempre da tendência a se cristalizarem e acabar por formar dogmas que substituem e afastam do real saber, porque esse último requer, desde sempre, a possibilidade de mudança, de certo nível de questionamento e rompimento, formando novas questões, novas indagações.  Mannoni nos fala abertamente disso em seu livro “Da Paixão do Ser à Loucura de Saber”, ela nos conta do quanto seria difícil aos analistas em formação, ou mesmo os já de longo trajeto, mostrar sua prática quando essa parece não seguir o estreito caminho técnico que se transmite enquanto “fazer” psicanalítico, afinal a aceitação no meio falará diretamente do seu prestígio profissional que lhe devolverá no real, tanto seu meio de subsistência, quanto  em seu íntimo, a noção de ser admirado e respeitado. Nos leva, a autora, a pensar na importância do ato de escrever para todo psicanalista, visando publicação ou não. Renato Mezan, aqui no Brasil, também escreverá de forma bastante pertinente sobre esse aspecto, o ato de escrever para um psicanalista.

Traduzimos isso como “se colocar na berlinda”, questionar-se e assim questionar sua prática. Um psicanalista solitário trancado à meia luz do seu consultório sempre correrá o risco de perder-se daquilo que mais preza: a “escuta psicanalítica”. Mas, pensamos também, que se fechar apenas em seus círculos de semelhantes, poderá levar ao mesmo resultado, é preciso abrir-se para tudo que o rodeia, como dizem na gíria popular, a escuta psicanalítica requer “estar antenado” com o mundo a sua volta (científico e leigo). Ao proceder dessa maneira abrirá com isso outra possibilidade de risco, a de afastar-se daquilo que se nomeia como psicanálise.  Recentemente isso tem sido muito discutido em relação aos psicanalistas que se aproximaram das vertentes chamadas de “neurociência”, em outros tempos isso já foi discutido quando da aproximação com as abordagens de grupos, instituições ou das chamadas de “práticas alternativas”.

Dentro dessa discussão, outra ainda se colocará, a de o que seria necessário para se reconhecer uma instituição enquanto formadora de psicanalistas, ou indo ainda mais longe, do que formaria um psicanalista. A resposta dada que remete ao tripé parece se apresentar sempre, ele é composto pela exigência da análise do analista em formação, da prática supervisionada e da aprendizagem teórica. Mas será que esse tripé realmente responde a essa questão? Como reconhecer onde esse tripé é aplicado dentro daquilo que se constitui como o irredutível do método psicanalítico? Trabalhar com a transferência e resistência, como disse Freud, seria o suficiente para se pensar ali em psicanálise?

Nomes como Sàndor Ferenczi e George Groddeck nos remetem a esses questionamentos, ali mesmo no início da psicanálise, onde ela ainda se expandia sob o olhar atento do mestre Freud.

O que hoje chamamos de psicanálise e como se forma um psicanalista? Será que temos resposta para essas indagações? Penso que não.

Uma vez que se autoriza enquanto tal, passará esse psicanalista, ao longo de sua trajetória(pessoal/profissional), por alguma modificação que o afastaria daquilo que se poderia reconhecer enquanto prática psicanalítica?  Deixa-se de ser psicanalista em algum momento, uma vez que já o foi?

Utilizar-se de uma técnica alheia à psicanálise, mantendo a leitura e orientação em seu método, faz dessa prática algo que não seja psicanálise?

Um psicanalista que nunca se pergunta sobre sua prática, que nunca entra em crise em relação a ela, é realmente comprometido com aquilo que há de mais característico nela, sua capacidade transgressora, e assim ainda se poderá chamar ao que faz de psicanálise?

Onde se constrói a ética psicanalítica, aquela que atravessa cada sujeito analista no mundo onde vive? Existe uma ética da e na clínica, ou ela abarca toda a vivência do analista?

Essas são as questões que me constroem, no momento sem resposta alguma, obviamente, mas que animam minha clínica ali onde ela acontece, no singular de cada encontro transferencial(contra-transferencial), assim como em todos os espaços onde circulo e debato a teoria que a fundamenta, a psicanálise. Espero encontrar aqui, mais um desses espaços.

Para finalizar esse texto e ampliar a possibilidade desse convite que faço, deixo-os com Ferenczi:

“Esse desejo impetuoso de tudo saber, que me levou neste último parágrafo às distâncias fabulosas do passado e me fez, com ajuda de analogias*, ultrapassar o que ainda nos escapa, traz-me de volta ao ponto de partida dessas considerações: o problema do apogeu e declínio do sentimento de onipotência. Como dissemos, a ciência deve renunciar a essa ilusão, ou pelo menos saber até que ponto ela penetra no domínio das hipóteses e das fantasias”. (FERENCZI, S. pg 87)¹

Perguntar-se sempre, duvidar de si mesmo e de sua prática, talvez seja um caminho para o enunciado de uma clínica psicanalítica e ao ultrapassar dessa onipotência que nos marca, a todos, em nosso desenvolvimento, quer pensemos ele no curso do nosso desenvolvimento pessoal(corrente da libido), quer a pensemos no curso da formação enquanto psicanalistas.

*analogia que fez entre o período de latência e a era glacial.

Leitura sugerida:

1 – FERENCZI, S.  – Escritos Psicanalíticos – 1909 -1933 – Prefácio    BIRMAN, J.

2 – FREUD, S. – Vol XII – Obras Completas – Edição Standart- Imago ed.

3 – MCDOUGALL, J. –Em Defesa de Uma Certa Anormalidade
Teatros do Corpo
Teatros do Eu
4 – MANNONI, M. – Da Paixão do Ser À Loucura de Saber

Por Denise Deschamps

 

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